quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sobre humilhação ou dos riscos de tirar caju.

Créditos: Foto do blog O Vencedor

Lembro que minha tia me alertava sobre galha de cajueiro. "É fina menina! Toma cuidado que se vergar demais, quebra!" 

Ao falar de humilhação, lembrei daquela época em que trepava nos pés de caju. Era preciso habilidade e paciência. Por vezes, os galhos eram frágeis e poderiam partir. O essencial era a vontade de chupar caju, mesmo sabendo que alguns poderiam nem tão doces assim.

Galha do cajueiro

Wilson Simonal

Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro
Ela falou se eu subir eu caio
Da galha do cajueiro
Vou fazer uma queixa quando meu papai chegar
Mamãe não me deixa subir nesse galho
Ela disse que caio
Vou lhe dar trabalho
Quando meu papai.... quando meu papai... quando meu papai chegar
Corro pra ele vou lhe contar
Papai, mamãe não quer...
Me tira mamãe, me tira
Me tira desse castigo
Eu subo naquela galha não corro nenhum perigo
Eu quero tirar caju que eu vendo e ganho dinheiro
Me deixa mamãe subir, deixa subir 
Na galha do cajueiro



****


Era um fim de tarde como outro qualquer.

Estávamos tomando sorvete, despretensiosamente. Uma boa parte caiu em meu vestido novo. Talvez, por frete, o atendente caprichara em minha porção. Exagerado.

Em tom de riso, Ele me disse: "você é muito lerda hein?"

A resposta seria automática. "Seu rabo", eu diria. A um (a) amigo (a), talvez coubesse uma variação usual: "seu cu".

Só que daquela vez, ela não respondeu. A resposta ebulia por dentro e quando a engoliu, sentiu na língua o gosto daquele comprimido rosinha, o infantil. Ácido acetilsalicílico. Doce, mas nem por isso bom.

E eis, pra mim, o sentido de humilhação.

Você quer revidar, você revidaria com qualquer outra pessoa. Ali, não. A arte sutil de limpar o sorvete do vestido e conter os impropérios que se seguiriam a uma ofensa, sendo esta grave ou banal e que talvez nem ofensa fosse.

Quando coisas como: "gostou não? Faça melhor", "vou mesmo e acabou" ou ainda "enfia no rabo" saem do seu vocabulário sendo até mesmo reprimidas de seu pensamento... É. Você está sendo humilhado.

A sua vontade está sendo subjugada, você está sendo submetido e o mais engraçado é que ninguém pediu pra que contivesse o palavrão. Foi de livre e espontânea vontade.

Como sabemos, vontades acarretam ônus e bônus. Claro que ela não sabe bem se gosta ou se odeia a si, ao seu comportamento e ao causador da humilhação. Talvez o orgulho a faça afirmar que se quisesse, poderia fazer diferente. Faz não. Você está sendo SUBJUGADA. HUMILHADA. Tão mexendo com teu ego. Diminuindo-o.

Engula o não a seco, sinta o gosto.

Deguste a soberania de outra pessoa sobre si mesma.

É como comer uma fruta. Talvez você não goste. Basta não comer, tens escolha! Talvez seja viciante e imperdível.

O dicionário afirma para o verbete humilhação:

humilhar -(latim humilio, -are, abaixar, abater) 

v. tr.

1. Tornar humilde.
2. Rebaixar, vexar.
3. Tratar desdenhosamente a.
4. Abater, submeter.

v. pron.

5. Mostrar humildade.
6. Submeter-se; render-se; prostrar-se.



Creio que o termo tenha, usualmente, uma conotação negativa e repulsiva, de onde surgem minhas ressalvas a conceber humilhação como prática em um relacionamento saudável. Não creio que vou gozar ao ser alvo de preconceito, de uma atitude destrutiva.

Humilhar é tornar humilde. Isso envolve mexer com o ego, com o orgulho. É o confisco das vontades. A meu ver, está intimamente ligada à dinâmica D/s, não podendo ser dela dissociada.

No momento em que ela cede o controle de seus quereres, assume uma posição humilde, que envolve uma reverência respeitosa, uma deferência submissa.

No momento em que engole o AAS, está selada a humilhação. Beijar o pé ou a mão, tirar a calcinha e outras coisas seriam apenas a expressão física e palpável do verbo.

HUMILHAR.

É... isso me dá prazer. Muito.

E depois, é delicioso passear pelas galhas de um cajueiro.



Vai um caju aí?

Créditos da foto: Aqui


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