domingo, 14 de novembro de 2010

Perdão por não ser a pessoa ideal. Obrigada por me amarem mesmo assim...




Podes Crer
Cidade Negra


o que é, meu irmão
eu sei o que te agrada
e o que te dói, e o que te dói
é preciso estar tranqüilo
pra se olhar dentro do espelho
refletir
o que é?
seja você quem for
eu te conheço muito bem
e isso faz bem pra mim
isso faz bem pra vida
onde quer que vá
eu vou estar também
eu vou me lembrar
daquela canção que diz

parapapapa....


bendito
encontro
na vida
amigo

é tão forte quanto o vento quando sopra
tronco forte que não quebra, não entorta
podes crer, podes crer,

eu tô falando de amizade
Meus amigos são poucos.  Gosto de muitas pessoas. Quase de todo mundo.  Amizade é casamento e tem que ser uma puta pessoa pra topar casar comigo. É, não sou de fácil convivência. 
A estes poucos, segue o texto abaixo, que tirei de um blog foda chamado Lágrimas de Crocodilo.
Sabe estas coisas que nos emocionam? 
Lá vai uma delas.
Enjoy it.

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A mãe do meu afilhado
Andre V.


Eu tenho um afilhado. O nome dele bem ao gosto dos craques de futebol nascidos no subúrbio tem W, H, Y e uma ou outra letra que desconfio nem consta do alfabeto ainda.

A mãe dele é uma das minhas mais leais e antigas amigas. Estudamos no mesmo colégio fundamental. Ela foi a primeira pessoa a saber que eu era gay. Na primeira transa dela o namorado usou uma camisinha que eu tinha dado de presente pra ela.

Ela sempre foi uma pessoa solar. Inteligente, bom humorada. Alegre.

Só que a vida dela não foi lá cheia de coisas alegres. De uma família muito pobre abandonou os estudos pra cuidar de filho dos outros pra ajudar no orçamento domestico.

Terminou os estudos a duras penas. Terminou o ensino médio e parou por ai. Os empregos disponíveis pra pessoas com a escolaridade dela [secretaria, vendedora, telefonista, recepcionista] lhe foram negados por ela ser baixa, negra, gorda e vesga.

Enfim. Ela era feia demais pra ficar de fora da senzala.

Continuou trabalhando de domestica. Coisa que faz até hoje.

Ela conheceu um sujeito. Que era mais simplório que ela. Honesto, trabalhador. Sem esperança de encontrar coisa melhor, casou-se com ele.

Com um sorriso triste ela me confessou porque aceitou o pedido de casamento dele: “ele nunca teve vergonha de me beijar em publico como os outros tiveram”

Eu seria o padrinho do casamento dela. E ela seria a madrinha do meu. Era o nosso plano quando descobrimos que nunca iríamos namorar na verdade. E a gente planejava mil coisas pra quando esse dia chegasse.

O dia chegou. Ela se casou. Mas eu não fui o padrinho. Porque o noivo me detestava.

O noivo desenvolveu um ódio patológico pela minha pessoa. Na época eu tinha uma namorada. Mas isso não era suficiente pra apaziguar o coração daquela tola e homofobica criatura. Ele instintivamente via em mim um inimigo a ser derrubado. E ele não media esforços pra me ridicularizar e me afrontar. E ela sofria, mas não falava nada. E eu me afastei deles.

Ela bateu o pé dizendo que eu seria sim o padrinho. Ele afirmou que não entraria na igreja se eu lá estivesse. Os dois romperam. E eu disse pra ela que não tinha importância. O importante e que ela fosse feliz. Nós choramos. E ela se casou com ele.

No dia da eleição eu a vi. Ela prematuramente envelhecida. Faltando um dos dentes da frente. O filho crescido. E o marido ogro como de costume. Conversamos um pouco. E ela com um sorriso triste tentava convencer a si mesma que estava muito feliz com a vida de dona de casa. Que pretende voltar pra escola e fazer pedagogia.

Ao se despedir de mim ela me olha nos olhos e me diz com convicção e firmeza: “Se eu não fosse evangélica, teria dado o meu filho pra você batizar”

Com o costume de anos, decifrei a mensagem que a frase continha. Ela se tocou que era perda de tempo abrir mão das pessoas que a gente tem ou gosta por conta de um preconceito ou de uma posição. Ela tava me dizendo que um ano depois de se casar ela tava pronta pra brigar por mim. E que iria até o fim com isso.

Às vezes por uma indecisão a gente deixa o momento de se posicionar e não deixar que medos, dúvidas ou a solidão defina que tipo de pessoa nós somos.

Eu tenho pensando muito nos inúmeros momentos em que me calei ou deixei que as pessoas decidissem como seria a minha maneira de agir.

Penso que esse momento acabou. Pensou que chegou a hora de brigar pra batizar os filhos daqueles que verdadeiramente me amam.

Eu sorri pra ela e disse que nunca o havia batizado como também não tinha estado na igreja com ela. Mas isso não me impedia de me considerar sendo as duas coisas.

A gente se abraçou e deixamos a escola onde nos conhecemos na segunda série.



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